segunda-feira, 6 de abril de 2009

Trilha para Pompeu

Trilha de Pompeu


Esta é uma trilha leve, quase que toda plana, e que todos ciclistas que moram na região Leste de BH podem começar o passeio montados em suas bikes desde a porta de suas casas. A aventura inicia na estrada que liga BH à bonita e pequena Sabará, a aproximadamente 25 km da capital. A estrada é bem movimentada, mas em quase toda sua extensão tem pista dupla, dando mais segurança para os ciclistas. Chegando em Sabará, você segue sempre margeando o Rio das Velhas até a saída para Caeté. Neste ponto você tem 3 opções para pedalar. Pode seguir pelo asfalto até Caeté, numa estradinha com visual maravilhoso que, segundo um motorista de ônibus da linha Sabará/Barão de Cocais, tem umas 263 curvas nos seus 20 km. Outra possibilidade é seguir pela estrada de terra até Morro Vermelho. Porém, estas duas opções serão resenhadas numa outra oportunidade, pois o assunto agora é a trilha de Pompeu. Os ciclistas, depois de atravessarem Sabará e chegar ao pé da estrada de leva a Caeté, devem virar à esquerda, adentrando uma estradinha de terra. Logo no início dá pra sentir o gosto do sossego, e a lembrança do trânsito e do barulho da cidade de minutos atrás vai se tornando cada vez mais remota. A caminho de Pompeu o ciclista vai acompanhar a margem de um riacho, tendo-o a sua esquerda e a mata a sua direita. Um mato de dar gosto. Graças a ele, tem sombra fresca na maior parte do percurso. O ciclista estará sempre protegido do sol, e por vezes, em algumas partes da estrada mais afastadas da margem do riozinho, há mata em ambos os lados, quando as árvores formam verdadeiros túneis naturais. Chegando à entrada de Pompeu, bairro afastado de Sabará, mas antes de adentrá-lo de fato, você pode simplesmente atravessar o asfalto e continuar seguindo pela terra. A partir daí é constante a presença dos marcos da Estrada Real, o que facilita a orientação pelo caminho a seguir. A vegetação é exuberante, com alguns trechos repletos de flores e borboletas, que como boas anfitriãs não demonstram se incomodar com a presença dos ciclistas. Pelo contrário: voam baixo por entre os aros dos pneus, fazendo-nos sentir o conforto de estar especialmente integrados à natureza. Pra curtir esta aventura qualquer esforço é exagero. Como a estrada é praticamente toda plana, não apresenta dificuldades nem mesmo para os iniciantes. Devido a quantidade de chuva que tem caído ultimamente, encontramos uma ou outra poça dágua, pra fazer a alegria daqueles que curtem um barro. Ao final deste “caminho mamão com açúcar”, o ciclista chegará onde antigamente havia uma ponte. Aí rola um ribeirãozinho simpático, que embora não dê pra nadar, serve pra um banho de gato, só pra refrescar. Pra quem não tem muita frescura, nada mal repor a reserva de água da garrafa. De onde vem, pra onde vai, e o que tem na água eu não sei ao certo...só sei que bebi, gostei, e ainda to aqui, vivinho da silva. Vivinha né... pois este texto foi escrito em parceria, quando dei a arrancada e Letícia, que provou da água, o toque de classe final. Quem não estiver saciado e quiser uma aventura mais radical, pode subir e continuar o passeio pela trilha, esta sim, com um grau de dificuldade elevado. Ela vai até a estrada para Caeté, sempre com o marco da ER para orientar. Possibilidades para curtir um pedal por estas bandas são muitas. Esta trilha, como as outras mencionadas anteriormente, merecerão relatos mais detalhados numa oportunidade futura. Sem esquecer da menina dos olhos meus: uma trilha alternativa, também na região de Pompeu, que percorre a silhueta de uma montanha passando praticamente dentro da mata. Só pra subir leva mais de 1 hora nessa trilha que é pesada mesmo para os veteranos da modalidade. Fica portando a minha sugestão para um passeio tranqüilo e agradável por Pompeu, lugarzinho bacana que graças à sabedoria divina fica só a abençoados 25 km de BH. Ou por aí, em torno dos 55 km contando ida e volta. Muito pouco pra poder chegar a um mundo paralelo a esta correria desenfreada que nos estressa e nos consome. Nós mortais urbanos precisamos buscar, de tempos em tempos um refúgio pra renovar a energia e descansar a cabeça, pra poder continuar enfrentando as doideiras desse mundo cão. Pompéu tá logo ali, resta-nos aproveitar. Com bom senso, claro! Pra quem quiser um pit stop menos “sadio” que a boa pedalada, eu também tenho sugestões a acrescentar. Entrando em Pompeu são boas as opções de onde provar um torresminho com a boa e velha cachaça da roça, ou simplesmente refrescar a garganta, como o restaurante Moinho Dágua, que é o meu preferido. Tem também o famoso e aclamado Jotapê. Depois desta parada é pegar o caminho de volta: atravessa Sabará e seguir no sentido BH... moleza. Bóra pedalar!



























































































































































































































segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Viagem de Bike pela Estrada Real - BH a Alvorada de Minas


Cidades e lugarejos que fizeram parte do percurso: Sabará, Caeté, Rancho Novo, Brumal, Barão de Cocais, Cocais, Bom Jesus do Amparo, Ipoema, Senhora do Carmo, Itambé do Mato Dentro, Morro do Pilar, Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas.
Este foi o caminho da ida. Na volta saímos de Alvorada de Minas no sentido de Conceição e de lá para Cardeal Mota, Santana da Vargem, Lagoa Santa e BH.

Depois de percorrer o trecho de BH a Diamantina, via Serra do Cipó, e de já termos feitos BH a Paraty, resolvemos completar o percurso até Diamantina pelo outro lado da serra, o mais difícil. Nas reuniões para os combinarmos os últimos detalhes, ficou acertado que desta vez nós não iríamos contar com o carro de apoio, já que todos os amigos estavam com algum compromisso. Isto implica em levar uma bagagem extra. Saímos de BH no dia 20/01, um sábado (dia de São Sebastião, olha ele de novo). Este ano, as chuvas eram nossa maior preocupação, pois a semana inteira chovia sem parar. Para nossa sorte, quando iniciamos a viagem, às 8h da manhã no sentido de Brumal, o tempo estava bom e com sol, este caminho nossas bikes já fazem de “olhos” fechados. Um trecho que de tão conhecido já se tornou fácil e muito agradável.
Pegamos a rodovia que liga BH a Sabará, que depois da reforma ficou muito boa, e de lá entramos para Morro Vermelho. É uma estrada de terra, com subidas leves e Morro Vermelho é um lugarejo muito bonito. De lá você pode ir até o restaurante Alpen Rose, e a cachoeira de Santo Antônio, que fica a 8 km. Mas nosso rumo é Caeté, que em pouco alcançamos. Uma rápida parada no bar do Paulo, como de praxe, e agora seguimos para Barão de Cocais.
Esta estrada nós conhecemos como a palma de nossas mãos, pois é o mesmo trajeto que fazemos a anos toda Semana Santa, para nosso sítio aos pés da Serra do Caraça, num arraial chamado Brumal. Grande parte do caminho é percorrida na sombra, e com poucas subidas. A chegada em Barão de Cocais é uma maravilha para o ciclista. Só descida.
Não posso deixar de comentar um novo lugar que conhecemos, um pouco antes de Barão de Cocais. Um riacho com suas águas mansas e limpas, que corta a serra e serve de local para os amantes de camping. E que agora será uma parada obrigatória nas nossas próximas idas a Brumal.
Nosso primeiro pernoite foi justamente no sítio em Brumal, e lá já encontramos o Cláudio e alguns amigos que passavam o final de semana naquele paraíso. Um churrasco, muita caipirinha, e lá pela meia noite já estava no ponto pra descansar e pensar no próximo destino.
A manhã de domingo já nos pegou na estrada. E que estrada... Saímos de Brumal, passando por Barão de Cocais e Cocais (descrita no trecho que fala da Estrada Real entre Brumal e Cocais), Às vezes cortávamos uma mata só de eucaliptos, e um pouco mais a frente pedalar tendo a esquerda à mata virgem e a direita as plantações de eucaliptos. Trecho difícil, mas que deu pra atravessar com tranqüilidade, além de todo o caminho conta com o Marco da Estrada Real, o que facilita saber qual direção devemos seguir.
Cortamos a BR 381 e entramos no trevo para Bom Jesus. Mais alguns quilômetros e entramos em Bom Jesus. Paramos para um lanche, reabastecer o Camel-Bag de gatorade e seguimos em direção a Ipoema, onde seria nosso o próximo pernoite.
Comentar sobre as belezas dos lugares que atravessamos durante toda a viagem fica até difícil. São vales e mais vales, montanhas brilhando ao sol, ou encobertas com pesadas nuvens. Rios, fazendas, nossa!!! Cachoeiras lá longe, incrustadas no meio das matas.... que vontade de largar a bike ali e percorrer aqueles caminhos... Mas sabíamos que teríamos muitas outras pelo caminho.
Chegamos em Ipoema num dia de festa. Cavalgada para São Sebastião. Muito bonita a festança, a procissão. Procuramos um lugar pra hospedarmos, e escolhemos a Pousada do Quadrado. Que nome estranho... Banho tomado, roupa lavada. Aproveito para explicar como nós desenvolvemos esta técnica para todos os dias estarmos com as roupas lavadas. Entramos para o banho vestidos com a indumentária completa para o ciclista e ali vamos lavando peça por peça. Depois é só colocar para secar, e no dia seguinte estão secas e prontas para mais um dia na poeira, barro, o que for.
Depois do banho fomos procurar um restaurante, um buteco, qualquer coisa pra comer.
Paramos no trailer do Renato, e lá ficamos conhecendo o Adão, e os dois nos contaram das viagens que fazem a cavalo pela região. Mostraram algumas fotos e realmente atravessam lugares fantásticos. Quem sabe um dia poderemos voltar e ao invés de bikes, nos juntamos a eles na cavalgada. Mas rango mesmo, nada.
E em pleno domingo, às 15h da tarde não encontramos um único lugar que nos servisse uma refeição, um tira-gosto. Segundo as pessoas mais antigas do arraial, este é um dos problemas de lá. Voltamos à pousada e disse isto a Ica, a zeladora, e ela com muita boa vontade, providenciaram um quebra-galho com sua amiga Marilene.
Marilene buscou arroz, feijão, ovos em sua casa, e com as sobras do restaurante da pousada, que fica a 4 km de distância, fez um caldo de mandioca. A comida ficou pronta lá pelas 21 hs e aquilo pra mim foi um banquete. Estas duas meninas, que são funcionárias da pousada, e não têm a obrigação de alimentar seus hóspedes, salvaram a reputação de Ipoema. Duas pérolas. São acontecimentos assim que enriquecem a viagem, que dão o colorido diferente e especial. .
Segunda-Feira e vamos rumo a Morro do Pilar, e no meu guia já dizia: “Percurso difícil, em estrada de terra sinuosa. Muitas subidas e descidas íngremes”. Coitado do candango aqui. Já atravessei a Serra do Cipó, a subida pra chegar a Milho Verde, a serra que joga Carrancas lá nas alturas, cheguei a Cunha, atravessei a Serra da Bocaina pra chegar em Paraty, pra chegar a Diamantina atravessei as montanhas e morros de São Gonçalo do Rio das Pedras, mas não imaginava que pra chegar em Morro do Pilar iria deixar meu suor, minha alma e chegar a exaustão quase que completa.
Penei. Delirei. Quis desistir. Depois de cada curva eu sonhava com uma reta, e vinha outro morro, ou uma descida que de tão íngreme não lhe dava tempo pra descansar. Era freio o tempo inteiro, atenção redobrada nos buracos, pedras, ou morros íngremes e longos.
Sabe aqueles gráficos quando você faz exame de coração? Sobe/desce... pois a estrada é assim mesmo. Faltava ainda 10 km e disse ao Amador: “cara, preciso descansar um pouco. Tenho de dormir nem que seja cinco minutos”. Deitei na beira da estrada, nem mochila, nem capacete, nada eu tirei. Dormi em cima de pedras, poeira ou barro, sei lá... Levantei e segui em frente, sempre com o apoio total do meu amigo Amador Caiafa que dizia “Não desisti Silvão, depois você vai se arrepender”. Eu levantava pedalava e pensava: “devo ser uma anta mesmo. Já passei por isto antes, sei como é difícil, desgastante, e aqui estou eu, fazendo tudo novamente.... Cansado, esgotado...”
Às vezes o desespero me fazia pensar: “vou dar esta bike para o Daniel. Nunca mais farei outra viagem....”. Olhava aquele gramado a margem da estrada e me dava vontade de esticar por ali e esquecer do mundo. Dormir.... dormir... que me importa se acordar no meio da escuridão, só queria parar.
Mas ao mesmo tempo feliz em minha solidão, meus pensamentos. E era justamente isto que me dava força pra continuar. As lembranças das pessoas. Das que conheço, das que ainda não conheço. Das novas amizades, e dos velhos amigos, dos lugares que passamos e dos que ainda estavam por vir. E viajava uma outra viagem dentro da minha. Já avistando Morro do Pilar e para nosso alívio descemos uma estradinha estreita, cheia de curvas e barrancos, mato e lá embaixo um rio... e que rio. Paramos e enveredamos pelo pasto, chegamos a beira do rio e nos jogamos em suas águas. Bebo aquela água sem nem pensar se ali posso faze-lo. Um novo gás e Morro do Pilar ta ali na frente. Mas pra chegar no “centro” mais duas ladeiras, e de lá direto para a Mercearia do Pilar.
Nossa chegada se dá ao entardecer, são 17h30, e vamos a Mercaria do Pilar. Amador pede uma cerveja, eu no rum com coca. Refeitos da travessia, vamos atrás do lugar para o pouso. Achamos a Pousada da Didica. Lugar simples, limpinho e pra mim era como se fosse 5 estrelas. Banho de chuveiro, lavar as roupas, e voltar na Pilar para comer uma travessa de macarrão. Barriga cheia, pé na areia.... e cama.
Uma noite de sono repõe a energia, e pra quem no dia anterior, imaginava que nunca mais iria pedalar, que queria ligar para alguém ir lá e busca-lo, lá estava eu, de novo montado na Maricota dos Prazeres rumo a Conceição do Mato Dentro. Desta vez demos sorte, e o trajeto, apesar de algumas boas subidas, foi tranqüilo e nos levou a um lugar que foi dos mais bonitos da viagem. Uma ponte sobre um rio, e do lado direito, no sentido Morro do Pilar a Conceição do Mato Dentro, tinha rochas que chegavam a uns 15 metros de altura, e o rio correndo lá em baixo. Algumas pedras avançavam e formavam uma espécie de bico, e mesmo com o Amador dizendo pra não ir lá, fui e me sentei lá na ponta, num espaço de pouco mais de meio metro e o despenhadeiro ali embaixo.
Ele só gritou: “se for cair, que caia para o lado de lá, pelo menos cairá dentro do rio”. Que nada. Ainda fui a outro ponto, mais alto, e de onde tive uma visão maravilhosa. O rio começava a formar corredeiras no meio do desfiladeiro. Bonito demais. Quero voltar lá ainda. Mais um pouco e avistamos Conceição, e chegando lá fomos direto ao bar do Adão, e desce cerveja, maçã de peito, caldo, farinha e pimenta e uma cachaça da boa. Depois de deixar as bikes e a bagagem na Pousada do Imperial, do nosso velho conhecido Garoto, fomos jantar no Solar da Lili. Era a segunda vez que fazíamos daquele lugar nossa parada em viagem pela Estrada Real.
Dia seguinte era hora de seguir até Alvorada de Minas e percorrer um caminho que também já era mais que conhecido. Estradão. Fácil demais. Chegamos ao trevo que dá acesso a Alvorada, que é marcado pelo bar do Valmir, o Gangas & Candeias. Paramos. E o de sempre: cerveja, tira-gosto e uma pinga. Um rio corta as terras do Valmir e fui lá dar o tradicional mergulho. Voltamos e pegamos a orientação para chegar a fazenda do Zé Ione, na Estrada para Alvorada de Minas. Ele nos disse: “Vocês seguem esta estrada mais uns 300 metros, lá na frente tem o bar do meu irmão, o Dé, ali vocês viram a direita e contam 5 mata-burro, no quinto entrem a esquerda e tão dentro da fazenda”.
Andamos os 300 metros e paramos novamente. Mais cerveja, uma lingüiça da roça e mais cachaça. O Dé é gente boa, e não poderíamos passar direto pelo bar dele. Agora era só seguir e contar os mata-burro e achar a fazenda. O que foi fácil. Quando chegamos, o povo fez uma festa danada, não acreditaram que aqueles dois malucos iriam mesmo sair de BH e chegar ali, e de bike.
Depois dos cumprimentos, das apresentações de praxe, fui tomar um banho, lavar as roupas, e sentar naquela mesa enorme, que fica em frente ao fogão a lenha, e de onde vinha aquele cheiro delicioso. Comi demais. Quiabo e angu! Hum! Depois foi conversa até as corujas começarem a piar. Passamos o outro dia na fazenda, andamos a cavalo, tomamos leite tirado na hora, e a noite fomos a Alvorada.
Como havia chovido a cântaros, a cidade tava vaziaça. Só um buteco aberto, mas com uma das figuras mais engraçadas que conhecemos, o Samy Davis Jr. Ele cismou com o Amador, e acabaram fazendo uma dupla que cantou a noite inteira. Só com um detalhe importante: em inglês. E o Remil, o verdadeiro nome do Samy, não fala uma palavra no idioma do Tio Sam. Então era só ooohhhhhh ishhhhhhh yehsssssss forevissssssss youssss. Mas ele curtia, viajava e anunciava: “Agora pra vocês uma música do Phil Collins”. Pena que o Amador não levou a máquina, pois colocamos um copo descartável num taco de sinuca, e isto era o microfone do Samy. Vocês tinham de ver a cena: ele sentado num banquinho, agarrado no “microfone” cantando em “inglês”.
Fim da estadia na fazenda. Voltamos a Conceição, onde passamos mais uma noite, e desta vez andamos mais pela cidade, visitamos seus novos points. Hora de dormir, e no dia seguinte seguir pra Cardeal Mota.
Saímos cedo e pela primeira vez em toda viagem, pegamos uma tempestade na estrada. Raios e trovões foram nossa trilha sonora, e teve uma hora que um caiu a poucos metros de onde estávamos. Só deu pra ver aquele clarão, é como aqueles fiozinhos de cobre que ficam dentro das lâmpadas.... cortou o céu e silêncio.... de repente aquele estralo, seco. Só falei uma coisa: “Caramba! Viu este Amador?” E ele: “Este passou perto”. Continuamos pedalando. Lá no alto, quando já começávamos a descer a serra do Cipó, resolvemos tirar uma foto na estátua do Juquinha. Pula cerca, entra no caminho e seguimos em frente. Mas ao subir por um monte de terra, quando desço a roda da frente afunda no barro e caio de cara, de boca, de peito na lama. Voou Silvio pra todo lado, e a bike por cima. Levanto com dificuldade, a mochila agarra na bike. Sou barro do capacete aos pés. Mas pra minha salvação tinha um córrego ali pertinho, entro com a bike e tudo dentro dele. Lavo a bike, me lavo. Já não quero nem sair daqui, bom demais.... fico só com a cabeça do lado de fora. Mas saio e ensopado vou lá no Juquinha tirar algumas fotos. Minhas botas esguicham água, sento, tiro-as e a água escorre.
Montamos novamente nas magrelas e acabamos a descida. Se da última vez que passamos por ali (2005), era pura terra, hoje grande parte é asfaltada e o trecho de tombamento da serra do Cipó é feito por bloquetes de cimento. Ficou uma maravilha. Mais uma noite ali e a viagem termina depois de quase 400 km percorridos, muitas dores, dúvidas, mas também de muita alegria, de momentos quase que únicos. Lembranças dos trechos que passamos e durante horas não víamos uma pessoa.... Agora já faço planos para o próximo trecho que vamos percorrer. Sei que vou passar por tudo aquilo novamente, mas vale a pena. É uma aventura que não tem preço.




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Trecho da Estrada Real que liga Brumal a Cocais e Brumal a Catas Altas

Vamos começar pelo caminho da Estrada Real que nos levará a Catas Altas, saindo de Brumal, que é um lugarejo e fica entre Barão de Cocais e Santa Bárbara, está aos pés da Serra do Caraça. Saindo de Brumal e seguindo os marcos, percorremos uma estrada que nos levará ao restaurante da Janaina, e de lá até o estradão da Pedreira Um. Segue-se mais alguns quilômetros pelo estradão e voltamos as estradinhas, sempre seguindo os marcos, que como já expliquei, indicam sempre a direção que o turista deve seguir. Em todas as encruzilhadas você deve observar qual lado da estrada está o marco e de “olhos fechados” você chegará ao seu destino. Logo que entramos nesta estradinha vamos passar ao lado de um muro de pedra, feito na época dos escravos. É uma espécie de curral, existe um arco para entrar e você pode subir, pois o muro tem cerca de um metro de largura e caminhar por ele. Continuamos a estrada que passa por várias fazendas, até nos levar a Catas Altas. Esta cidade é de uma beleza singular. Se Brumal fica de um lado da serra do Caraça, Catas Altas está justamente do outro lado, ou seja, atrás. Suas Igrejas, o Festival do Vinho, sempre em julho, e suas muitas cachoeiras são alguns dos atrativos para os turistas. De Catas Altas e ainda seguindo os marcos vamos até Morro da Água Quente, e logo na entrada nos deparamos com uma lagoa maravilhosa. Na saída para a rodovia que liga a Marina, encontra-se o restaurante Rancho do Pote. É um passeio que vale a pena.

Agora a outra parte da estrada. Saindo de Brumal você segue no sentido de Barão de Cocais, e entra nas trilhas demarcadas pelos marcos da Estrada Real. Eles vão te levar por uma floresta de eucaliptos que vão até o alto da Torre do Barão. Esta subida é das mais fortes, e só ciclistas bem preparados vão conseguir transpô-las pedalando. O trajeto é todo feito a sombra. Chega-se no alto da Serra e começamos a descida para Cocais. Mas antes temos dois pontos de que não podemos passar sem uma parada. O primeiro é a Cachoeira da Pedra Pintada, que fica numa propriedade particular, e paga-se uma pequena taxa para visitá-la. A trilha até a cachoeira é bem sinalizada e mantida limpa por empregados do sítio. Mais abaixo encontramos o Sítio Arqueológico da Pedra Pintada, onde estão pinturas rupestres, o local foi tombado pelo governo e faz parte de pesquisas por especialistas da UFMG.
Continuamos a descida e chegamos a Cocais. Um arraial também que guarda muito da história de Minas.

Foto da Viagem BH-Alvorada de Minas









































































DE BIKE PELA ESTRADA REAL – CAMINHO VELHO


A História

Estudos indicam que Fernão Dias foi o responsável pela expedição que resultou na abertura do hoje chamado Caminho Velho – via que ligava as antigas vilas paulistas do vale do rio Paraíba do Sul, aos primeiros núcleos mineradores do que se conhecia à época como Sertão de Cataguás.
Entre 1674 e 1681, a famosa bandeira de Fernão Dias fundou os primeiros arraiais da futura capitania e abriu caminhos fundamentais na história do povoamento e da colonização de vastas regiões do território brasileiro. Os caminhos reais adquiriram, já a partir da sua abertura, natureza oficial, por constituírem as únicas vias autorizadas de acesso à região de reservas de ouro e diamantes da capitania. A circulação de pessoas e mercadorias era obrigatoriamente feita por eles, considerando-se crime de lesa-majestada a abertura de novos caminhos.
Estrada Real referia-se, assim, às vias que, pela antiguidade, importância e natureza oficial, eram propriedade da Coroa metropolitana. Durante todo o século XVIII, e também em parte do XIX, as estradas reais foram os troncos viários principais do centro-sul do território colonial, mesmo quando a mineradora já se fora e os caminhos se tornaram livres e empobrecidos.
Hoje, reunidas sob o nome de Estrada Real, as vias tornaram-se verdadeiros eixos histórico–culturais, cujo valor vem sendo difundido por diversas entidades, governamentais e não governamentais, visando o incremento do turismo e o conseqüente desenvolvimento sócio-econômico.

Por quê de Bike?
O ciclismo favorece o alcance de áreas de difícil acesso a automóveis, permitindo o registro de paisagens e ocorrências sócios-culturais inusitadas. Desta forma, os ciclistas têm como identificar e registrar paisagens, riquezas naturais, arquitetura histórica e popular, pessoas, histórias de vida, hábitos, gastronomia e produtos regionais, enriquecendo o rol de apelos turísticos dessas regiões. O termo “bike” agrega atualidade a um evento histórico, despertando o interesse e a valorização por parte do publico jovem. Demonstrando a viabilidade do roteiro para ciclistas atraímos os esportistas e amantes do turismo natural.
Viajando de bike você nunca está sozinho, pois por onde passa as bikes chamam a atenção e sempre alguém pára e pergunta: “Pra onde ocê ta indo”. E daí surge um papo e a gente faz mais uma amizade naquele lugar.
Depois de percorrer o caminho entre Belo Horizonte e Diamantina, eu, Silvio Antônio Lourenço, e meu amigo Amador Caiafa, resolvemos ir de bike até Paraty. Atravessamos três estados – Minas, São Paulo e Rio de Janeiro – passamos por cidades de valor histórico reconhecido mundialmente, como Congonhas, Tiradentes e São João Del Rei, por municípios que compõem o maior complexo hidromineral do mundo, como Caxambu e São Lourenço, mas também passamos por inúmeros vilarejos que se vislumbram ao longo do caminho, cujas riquezas também serão exaltadas por esta expedição, que contou ainda com o apoio de carro de Márcia Perillo Lourenço e Ana Maria Caiafa. Quem faz o apoio tem um importante papel nestas viagens, pois além de levar toda a bagagem, ficam responsável por chegar nas cidades que vamos pernoitas e providenciar a pousada e, se possível, o lugar onde iremos almoçar ou jantar, dependendo da hora. E claro, ficar atentos a algum imprevisto, como uma queda ou alguma peça da bike que quebre e não haja conserto ali no meio da estrada, o que graças a Deus, em todas as nossas viagens não ocorreu.
Nossa viagem iniciou no dia 16 de julho de 2006, um domingo, as 8 horas, e o pessoal do apoio um pouco mais tarde. Confesso que ainda não tinha uma idéia do que viria, estava tão eufórico, passei tanto tempo correndo atrás de patrocínios, que não vieram, a não ser uma ajuda do meu chefe, Hélio Bazzoni, do Célio Moreira, e de amigos e parentes, que esqueci o tamanho das distâncias que iríamos percorrer.
Mas são gostosas estas sensações, o encontro com seu parceiro, à saída, os primeiros metros. Como sempre fazemos em nossos passeios, saímos de bike da porta de casa, e escolhemos pegar a Estrada Real á em Sabará, e dali seguir por Nova Lima. Descemos para Sabará, trajeto que minha bike já quase vai sozinha, e de lá pegamos uma estrada de terra que passa por trás da Serra do Curral, bonita e tranqüila, para Nova Lima. Aí senti que a viagem tava começando.
Cortamos Nova Lima, Honório Bicalho e seguimos para Rio Acima. Uma rápida parada na praça para um lance e vamos para Acuruí, e como subimos. Foi na subida para Acuruí que o nosso apoio, Márcia e Aninha, nos alcançou e fizemos o nosso primeiro contato através dos Walk-Talkies que usamos nesta viagem para nos comunicar e que serviu de orientação, tanto para nós das bike, quanto para elas no carro.
A cada instante olhávamos para trás e podíamos avistar lá no fundo Belo Horizonte e aquela torre perto do BH Shopping. E como subimos a serra, subimos tanto que achei que bateria na porta do céu. Mas é justamente nas subidas que temos a oportunidade apreciar melhor as paisagens. Já na descida, é com os olhos grudados no caminho, qualquer descuido e pode ser fatal. Quase chegando em Acuruí cruzamos com alguns cavaleiros que faziam o caminho de Itabirito a Rio Acima.
Finalmente chegamos a um lugarejo, e eu pensava que Acuruí era uma cidade, é uma rua só e algumas casas, mas agradável e acolhedor. Como iríamos conseguir um lugar pra ficar. Fomos comer alguma coisa no Cantinho do Molho Pardo, e por sorte, a dona do bar, tia Eliana, era a única pessoa que tinha um barraco pra alugar. Ficamos lá. Abrimos a primeira tequila. E foi na Tia Eliane e sua filha Elianinha, que nos receberam tão bem, que voltamos para o jantar. Mas mortos pelas subidas, fomos dormir, pois no outro dia a jornada seria até Congonhas.
Levantamos cedo, e ainda deu tempo de dar um giro pelo lugarejo. No final da rua, a gente entra num condomínio fechado, e lá embaixo, sob uma neblina, tem um lago enorme. Lugar bonito aquele. Voltamos e tomamos nosso café da manhã com a tia Eliane. Finalmente estamos na estrada novamente, refeitos do primeiro dia, super animados. Tudo é novidade, já me dou por satisfeito e falo isto para o Amador. Só esta primeira parte, já valeu a pena. Neste primeiro dia percorremos 100 km, e um aparelho que simula o consumo de calorias, registrou o recorde de toda a viagem: 5.90.
De Acuruí a Congonhas – Saímos com destino à cidade de Glaura, só estrada de terra, entre Glaura e Cachoeira do Campo, que já é por asfalto, tem uma subida tão forte que neste local acontece o campeonato Mineiro de Skate morro abaixo. Depois você volta a estrada de terra passando por Santo Antônio do Leite, Engenheiro Correia e a cidade fantasma de Miguel Burnier.
Entre estes dois lugarejos aconteceram algumas coisas interessantes. Nunca vi tanta poeira, acho que foi o trecho que ficamos mais sujos, completamente cobertos por uma camada de poeira e pó de minério. Terrível. Mas teve uma caminhonete que ao cruzar com a gente, quase parou. Eu fui chegando pra perto do cara, achando que ele iria nos perguntar algo, e ele me disse: “Diminuí a velocidade pra não levantar poeira em vocês”. Caramba! Que educação. Ao contrário, os motoristas daqueles monstros de caminhões, passavam voando, e na descida pra Miguel Burnier, faziam uma nuvem de pó, a gente perdia a visibilidade da estrada. Tínhamos de diminuir, deixar os caras irem embora, pra poder voltar a ver a estrada. Quando entramos em Miguel Burnier, com este nome tão imponente, achamos que seria um oásis naquele vale de poeira. Que nada... Mais parecia uma cidade fantasma. Com suas casas em ruínas, uns poucos moradores resistentes, esperando que os grandes dias voltem aquele cantinho esquecido por Deus. Adeus Burnier vamos em frente.
Seguimos em direção a Lobo Leite e de lá até Congonhas, este último trecho percorrido por asfalto. Em Congonhas não conseguimos nenhuma pousada, e acabamos ficando num hotel, e para quem viaja de bike, as pousadas são sempre mais aconchegantes, tem mais calor humano, mas deu pra descansar. A partir de Congonhas, como era Julho, o Festival de Inverno já se encontrava presente e com várias oficinas pela cidade. À distância percorrida neste segundo dia foi de 83,5 km.
De Congonhas a Lagoa Dourada – Um dos trechos mais bonitos da viagem. Saindo de Congonhas seguimos em direção a Alto Maranhão. O caminho é tão bonito que nem me lembro se tinha muitas subidas, só sei que quando assustamos já estávamos chegando a este lugarejo. Mas também você passa de passagem, mesmo de bike não levamos mais que 5 minutos para atravessar o casario. Aí seguimos para Pequeri, outro ouro em pó. Passamos por algumas pontes, trilhas, estradinhas e lá do alto avistamos a cidadezinha. Mas fizemos uma confusão com as placas e entramos por outro caminho, 1,5 km depois chegamos a conclusão que deveríamos voltar e passar dentro do lugarejo. E lá, seguindo os marcos, fomos parar dentro de uma fazenda. Uai, e agora Amador? Acabou a estrada. Ficamos rodando num pátio imenso, sem entender direito pra onde seguir. Quando um peão sai de trás de um monte de lenha e nos informa: “vocês tem de seguir ali, beirando a cerca, só passa a pé, de moto ou de bicicleta”. Fomos em frente e não vão acreditar, pedalamos dentro de uma mata fechada, só com uma trilha, maravilhoso.... Atravessamos pinguelas, riachos, brejos, descidas e subidas.... Eu e Amador nem acreditávamos no que víamos.... Numa destas descidas, Amador “o veloz”, entrou com tudo dentro de um brejo, claro, a bike atolou e ele enfiou o pé na lama. Eu vinha logo atrás e brequei. E ele, “vai, vai, passa direto”. Que isto cara, não quero sujar meu pé de barro. Escolhi o melhor local, carreguei a bike e pulei. Sai limpinho e gozando o Amador. Mas foi só montar na bike, seguir mais alguns metros e uma placa: “pinguela caída”. Desta vez não teve jeito. Bike nas costas e os pés e pernas na água. Barro pra todo lado. Molhamos e rimos um bocado. Era só diversão. No final desta trilha nós ainda pedalamos ao lado de um rio, com a mata a nossa esquerda. É indescritível.
Quando chegávamos no nosso destino o cansaço era grande, mas nosso apoio já tinha providenciado o local para o descanso. Saíamos sempre a noite e era muito divertido. Conversávamos sobre o percurso do dia e planejávamos o roteiro do dia seguinte. Sempre que possível, mandávamos uma mensagem ou um e-mail para meu cunhado Cláudio Perillo, que retransmitia para todos os amigos nosso paradeiro e as aventuras. Foi engraçado, pois as pessoas, que as vezes nem conhecíamos, chegavam para trabalhar e queriam logo saber notícias da viagem e passavam a acompanhar a aventura.
Depois passamos por Paraopeba e de lá para São Brás do Suaçuí. Aqui perdemos as referências dos marcos. E aproveito para explicar como funcionam os marcos da Estrada Real. Eles indicam sempre a direção que o turista deve seguir, se você se encontra diante de uma bifurcação, e o caminho correto for o da esquerda, eles vão colocar o marco daquele lado da estrada. E mesmo dentro das matas, quando é somente trilha, você não se perde, sempre encontrará o marco e aí é só seguir a direção que ele indica. Sempre seguir a estrada para o lado que ele de mostra.
De São Brás seguimos por asfalto até Entre Rios de Minas, Casa Grande e finalmente Lagoa Dourada, a cidade do Rocambole. Neste terceiro dia percorremos 70 km. Ficamos na Pousada das Vertentes, do seu Pedro, que largou seu Paraná e veio fincar raízes em Minas Gerais. O filho do seu Pedro também fabrica seus próprios instrumentos de corda, como violão e cavaquinho, é um artesão.
Este menino, quando viu o nosso estoque de bebidas, comentou: “cara vocês são os primeiros ciclistas que passam aqui e não ficam só no suco, água e frutas....”. O kit Primeiros Socorros é mesmo da pesada.
De Lagoa Dourada a São João Del Rei – Resolvemos seguir a planilha que recebi do IRE, e nos demos mal. É muito confuso, andamos em círculo e aumentando em muito nosso percurso. Acredito que com a ajuda de um GPS fica mais fácil. Teríamos de sair direto em Prados, por terra, e saímos no trevo de Resende Costa (vale a pena uma visita nesta cidade das rendas). Eu e o Amador andamos em círculo. Mas sem stress. Só disse a ele: cara, em algum lugar a gente vai chegar. Se tem estrada, tem algo no fim. E tome pedalada pra todo lado. Foi até bom, pois passamos em muitos lugares bonitos. Inclusive uma pousada, onde mãe e a filha nos receberam muito bem. Pena que ficamos só uns 30 minutos.
Seguimos em frente e começamos a ouvir o barulho de carros. Logo a gente voltaria ao asfalto. E de lá pegamos o trevo para Prados, e aí sim, voltamos a ter os marcos como orientação, mas também é a região do governador de Minas, Aécio Neves. Passamos por Bichinho, Tiradentes, Santa Cruz de Minas e São João Del Rei, que são praticamente emendadas uma a outra. No quarto dia percorremos 75.5 km, e pela planilha do IRE seria mais ou menos uns 43 km.
Quando passamos por Bichinho, parecia que era festa no arraial, carros e mais carros, mas era um velório, alguém importante do lugar havia morrido. Seguimos pra Tiradentes. Que cidade bonita.... pena que ficamos pouco tempo, nosso destino era S. J. Del Rei, onde ficamos numa pousada que funciona como clinica de repouso, Pousada das Andorinhas, a dona, uma psicóloga, tem o consultório no mesmo lugar. Só tinha a gente no lugar. Uma paz. São João Del Rei e Tiradentes merecem uma visita especial, guardam em suas ruas um pouco da história de Minas.
São João Del Rei a Carrancas – Onde as atividades do Festival de Inverno também eram os atrativos das noites. Trecho todo feito através do asfalto, mas para chegar a Carrancas você sobe uma serra que não tem fim, um paredão. Passamos pelas seguintes cidades: São Sebastião da Vitória, Caquende, Nazareno, Itutinga e daí pra Carrancas. Perdemos a travessia da represa pela balsa em Capela do Saco, mas devido ao stress do atraso no dia anterior, não quisemos arriscar a mais um erro na leitura da planilha. Um detalhe importante, a maioria das pessoas da região do sul de Minas, não tem a mínima noção do que é Estrada Real, onde ela passa ou coisa parecida.
Em Carrancas ficamos mais um dia para descansar as pernas. Hospedamos na Pousada do Senna, e aproveitamos para visitar suas cachoeiras e apreciar o visual do alto da serra. Carrancas é um dos lugares mais bonitos de toda a viagem, e conta com ótima infra-estrutura de apoio ao turista, pois o potencial da região é o eco-turismo, e agências que atendem as suas variadas demandas, como visitas as cachoeiras, trilhas, rios, corredeiras.
Fomos até a Cachoeira da Zilda, e fizemos uma amizade com o dono do terreno, se não me falha a memória o nome dele é Adenilton. No final das contas, nós já estávamos bebendo pinga e provando tira-gosto com ele no balcão do bar, conversando sobre uma futura sociedade entre ele e o Amador. Olha o que ele nos contou: Reza a lenda que a Zilda aparece toda noite de lua cheia lá na cachoeira que leva o seu nome. Então um grupo de estudantes das Universidades de São João Del Rei e Viçosa, foram passar uma noite lá para comprovar. O que o Adenilton fez. Combinou com um amigo que a meia-noite ele iria aparecer no alto de um barranco, vestindo um lençol branco e por baixo deste lençol acenderia uma lanterna. Dito e feito. Não ficou um estudante pra contar a história. Saíram numa carreira só, em desembalada, com os cabelos em pé e os pêlos eriçados.
A história tomou corpo e correu o mundo, levando mais estudantes curiosos a cachoeira. Ele vendo aquele movimento todo, contou a “armação” para os estudantes que não acreditaram e foram lá pra Zilda em outra noite de Lua Cheia. Pouco depois da meia-noite voltam os estudantes, todos apavorados, assustados e contando que viram a tal mulher. O Adenilton tentou convence-los que era mentira. Mas nada fazia com os que alunos mudassem de opinião. Então ele próprio foi lá. Pegou seu cachorro, uma lanterna e desceu até a cachoeira. Quando ele bate o olho lá embaixo, perto do poço, ele também viu a tal Zilda. O primeiro a picar a mula foi seu cachorro, e logo atrás ele também seguiu em desembalada carreira. Com os cabelos em pé, correu até sua casa, e nem olhou pra trás. A lenda ainda continua correndo o mundo. Eu é que não vou lá pra conferir.....
Neste dia nós percorremos a distância de 84,5 KM.
Carrancas a Baependi – Até a cidade de Cruzília é praticamente toda por estrada de terra, passando pela fazenda Traituba, hoje um hotel-fazenda, que foi construída a mais de 200 anos para hospedar D. Pedro I, e hoje é uma referência histórica da arquitetura e hábitos da época, e de lá seguimos Cruzília. Vale a pena uma parada em Traituba, uma construção imponente, enorme. Realmente muito bonita. Paga-se uma taxa de R$ 3,00 (preço da época, julho de 2006) para entrar e visitar suas dependências. Bebemos uma água no filtro e seguimos em frente, rumo a cidade para Cruzília onde fizemos mais uma parada, pois um aro da minha bike, que eu tinha acabado de trocar justamente para a viagem, não agüentou aquelas famosas costeletas da estrada de terra, e trincou.
Em Cruzília paramos numa oficina e o Otto, um cara estranho, ele perdeu quase que toda a visão num acidente de moto, mas que trabalha melhor que muitos que enchegam normalmente. Ele fez o serviço pra mim e trocou o aro. Entre Cruzília e Baependi atravessamos um local denominado como “cavas”. As “cavas” são profundos barrancos chegando a termais de 5 metros de profundidade. São encontradas no alto das montanhas por passa a Estrada Real e são encobertas pelas árvores dando a impresão de uma passaram secreta.
Seguimos até Baependi, e ficamos na Pousada Cachoeirinha. Foi lá que eu quis dar uma de Tarzan, tentei atravessar um lago pendurado em uma corda e “cataplan” caí no lago, molhei todo e quase acabo com meu passeio, pois acabei me machucando um pouco. E como fazia muito frio, tomei umas 4 pingas, 3 pra mim e uma joguei no corte no tornozelo. Neste dia pedalamos uma distância de 78,5 km.
De Baependi a Passa Quatro – Passamos direto pelo trevo de Caxambu e seguimos em direção a Pouso Alto, uma rodovia que dá saída do sul de minas para o Rio e São Paulo, bem estreita. Passamos por São Sebastião do Rio Verde, Capivari, Itanhandu e finalmente Passa Quatro. Apesar da estrada super movimentada, até que foi bem tranqüila. Em Passa Quatro ficamos na Pousada Floradas da Serra, dia Tia Heloisa, que nos contou que sua mãe foi namorada de Juscelino Kubistchek, e mostrou um livro escrito por ele e com uma dedicatória de próprio punho a sua mãe. No dia seguinte, levantamos cedo para lavar as bikes antes de seguir viagem. O Café da manhã da sua pousada foi uma delícia. Distância percorrida foi de 69 km.
Passa Quatro a Guaratinguetá – Também seguimos direto no asfalto. Saído de Pasa Quatro, percorremos a distância de 29 km, e entramos no território paulista. Paramos logo na divisa, onde você tem uma vista maravilhosa, e depois vem uns 8 km só de descida. Cruzamos com dois outros ciclistas, eles subindo, e nos avisaram que a estrada estava em obras. Deveríamos descer com o cuidado redobrado. Voamos estrada abaixo. Foi nosso percurso mais rápido, andamos quase 72 km em 3h30.
Guaratinguetá a Paraty – Guaratinguetá, que é uma cidade de porte médio, com muito movimento, ficamos no Hotel Café. Não gostei de nada lá, muito movimento pela proximidade de Aparecida do Norte. E lá todos com quem conversamos procurando informações para seguir viagem nos disseram que a subida até Cunha era terrível, então nosso plano era fazer mais um pernoite em Cunha. Mas quando chegamos na entrada de Cunha, nós ainda tínhamos muita lenha pra queimar e resolvemos ir direto até Paraty.
Cunha é um pedaço de paraíso no meio de tanto morro.
Você sobe, sobe, e sobe..... não é pouco não, sai de uma altitude de 350 e chega a 1.500. Depois vem uma descida brava de mais ou menos uns 10 km dentro da Serra da Bocaina que é só pedras e buracos, a gente tem de parar pra descansar as mãos de tanto usar os freios. Mais um trecho sinuoso de asfalto, onde dá pra tirar o atraso, e finalmente chega-se a Paraty. Só quem faz este caminho pode imaginar como nos sentimos descendo aqueles últimos quilômetros, a bike ficou leve, o cansaço sumiu. Uma alegria, uma euforia tomava conta da gente. Na entrada de Parati eu e o Amador nos abraçamos, e comemoramos mais uma viagem bem sucedida. Neste dia, apesar de andarmos quase 100 km, de muita subida, descida com pedras e buracos, e gastar mais de 6 horas pra vencer a distância, ainda tínhamos disposição de aproveitar a noite. Antes fomos para nossa última pousada, e para tanto, nada melhor que escolher a The Best. Ficamos num lugar maravilhoso que leva o nome de Bambu Bamboo, e cujo gerente e dono é o Neto. Um cara super educado, atencioso, e como lhe disse, ele é o diferencial da pousada. Um Lord.
Paraty é realmente muito bonita, uma Ouro Preto a beira-mar. Assim que deixamos as bikes descansando na Pousada, fomos comemorar com a nossa tradicional Havana. No outro dia fomos conhecer a praia de Trindade, outro paraíso perdido no meio de tantas descidas, subidas, florestas e montanhas.
Nossa viagem foi ótima, foi super legal, super tranqüila, fora alguns problemas com as bikes, um pneu furado na Via Dutra, o porta água que quebrou, coisas normais de acontecer numa viagem longa, tudo correu super bem. Trouxe varas lembranças, muitas estórias e muita coisa na bagagem.
A minha sensação foi a mesma que li no blog de outro ciclista, Walter Carneiro Magalhães, que também percorreu estas estradas: “Cruzamos montanhas, riachos, arraiais, cidades e vilas. Conhecemos paisagens naturais, monumentos, obras de arte e registros históricos, estradas e trilhas. Descobrimos olhares e sorrisos na simplicidade e hospitalidade do povo mineiro, na receptividade e calor humano dos paulistas e cariocas. Mais rico que o metal amarelo e diamantes, essas são na verdade nossas maiores riquezas e que a coroa portuguesa não teve como levar do nosso país”.
Ao viajar pela Estrada Real, descobri também que viajamos por uma estrada de sonhos cheia de emoções e desafios, e que está à espera de que outros aventureiros venham descobri-la também.

Fotos da Viagem BH-Paraty