
Cidades e lugarejos que fizeram parte do percurso: Sabará, Caeté, Rancho Novo, Brumal, Barão de Cocais, Cocais, Bom Jesus do Amparo, Ipoema, Senhora do Carmo, Itambé do Mato Dentro, Morro do Pilar, Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas.
Este foi o caminho da ida. Na volta saímos de Alvorada de Minas no sentido de Conceição e de lá para Cardeal Mota, Santana da Vargem, Lagoa Santa e BH.
Depois de percorrer o trecho de BH a Diamantina, via Serra do Cipó, e de já termos feitos BH a Paraty, resolvemos completar o percurso até Diamantina pelo outro lado da serra, o mais difícil. Nas reuniões para os combinarmos os últimos detalhes, ficou acertado que desta vez nós não iríamos contar com o carro de apoio, já que todos os amigos estavam com algum compromisso. Isto implica em levar uma bagagem extra. Saímos de BH no dia 20/01, um sábado (dia de São Sebastião, olha ele de novo). Este ano, as chuvas eram nossa maior preocupação, pois a semana inteira chovia sem parar. Para nossa sorte, quando iniciamos a viagem, às 8h da manhã no sentido de Brumal, o tempo estava bom e com sol, este caminho nossas bikes já fazem de “olhos” fechados. Um trecho que de tão conhecido já se tornou fácil e muito agradável.
Pegamos a rodovia que liga BH a Sabará, que depois da reforma ficou muito boa, e de lá entramos para Morro Vermelho. É uma estrada de terra, com subidas leves e Morro Vermelho é um lugarejo muito bonito. De lá você pode ir até o restaurante Alpen Rose, e a cachoeira de Santo Antônio, que fica a 8 km. Mas nosso rumo é Caeté, que em pouco alcançamos. Uma rápida parada no bar do Paulo, como de praxe, e agora seguimos para Barão de Cocais.
Esta estrada nós conhecemos como a palma de nossas mãos, pois é o mesmo trajeto que fazemos a anos toda Semana Santa, para nosso sítio aos pés da Serra do Caraça, num arraial chamado Brumal. Grande parte do caminho é percorrida na sombra, e com poucas subidas. A chegada em Barão de Cocais é uma maravilha para o ciclista. Só descida.
Não posso deixar de comentar um novo lugar que conhecemos, um pouco antes de Barão de Cocais. Um riacho com suas águas mansas e limpas, que corta a serra e serve de local para os amantes de camping. E que agora será uma parada obrigatória nas nossas próximas idas a Brumal.
Nosso primeiro pernoite foi justamente no sítio em Brumal, e lá já encontramos o Cláudio e alguns amigos que passavam o final de semana naquele paraíso. Um churrasco, muita caipirinha, e lá pela meia noite já estava no ponto pra descansar e pensar no próximo destino.
A manhã de domingo já nos pegou na estrada. E que estrada... Saímos de Brumal, passando por Barão de Cocais e Cocais (descrita no trecho que fala da Estrada Real entre Brumal e Cocais), Às vezes cortávamos uma mata só de eucaliptos, e um pouco mais a frente pedalar tendo a esquerda à mata virgem e a direita as plantações de eucaliptos. Trecho difícil, mas que deu pra atravessar com tranqüilidade, além de todo o caminho conta com o Marco da Estrada Real, o que facilita saber qual direção devemos seguir.
Cortamos a BR 381 e entramos no trevo para Bom Jesus. Mais alguns quilômetros e entramos em Bom Jesus. Paramos para um lanche, reabastecer o Camel-Bag de gatorade e seguimos em direção a Ipoema, onde seria nosso o próximo pernoite.
Comentar sobre as belezas dos lugares que atravessamos durante toda a viagem fica até difícil. São vales e mais vales, montanhas brilhando ao sol, ou encobertas com pesadas nuvens. Rios, fazendas, nossa!!! Cachoeiras lá longe, incrustadas no meio das matas.... que vontade de largar a bike ali e percorrer aqueles caminhos... Mas sabíamos que teríamos muitas outras pelo caminho.
Chegamos em Ipoema num dia de festa. Cavalgada para São Sebastião. Muito bonita a festança, a procissão. Procuramos um lugar pra hospedarmos, e escolhemos a Pousada do Quadrado. Que nome estranho... Banho tomado, roupa lavada. Aproveito para explicar como nós desenvolvemos esta técnica para todos os dias estarmos com as roupas lavadas. Entramos para o banho vestidos com a indumentária completa para o ciclista e ali vamos lavando peça por peça. Depois é só colocar para secar, e no dia seguinte estão secas e prontas para mais um dia na poeira, barro, o que for.
Depois do banho fomos procurar um restaurante, um buteco, qualquer coisa pra comer.
Paramos no trailer do Renato, e lá ficamos conhecendo o Adão, e os dois nos contaram das viagens que fazem a cavalo pela região. Mostraram algumas fotos e realmente atravessam lugares fantásticos. Quem sabe um dia poderemos voltar e ao invés de bikes, nos juntamos a eles na cavalgada. Mas rango mesmo, nada.
E em pleno domingo, às 15h da tarde não encontramos um único lugar que nos servisse uma refeição, um tira-gosto. Segundo as pessoas mais antigas do arraial, este é um dos problemas de lá. Voltamos à pousada e disse isto a Ica, a zeladora, e ela com muita boa vontade, providenciaram um quebra-galho com sua amiga Marilene.
Marilene buscou arroz, feijão, ovos em sua casa, e com as sobras do restaurante da pousada, que fica a 4 km de distância, fez um caldo de mandioca. A comida ficou pronta lá pelas 21 hs e aquilo pra mim foi um banquete. Estas duas meninas, que são funcionárias da pousada, e não têm a obrigação de alimentar seus hóspedes, salvaram a reputação de Ipoema. Duas pérolas. São acontecimentos assim que enriquecem a viagem, que dão o colorido diferente e especial. .
Segunda-Feira e vamos rumo a Morro do Pilar, e no meu guia já dizia: “Percurso difícil, em estrada de terra sinuosa. Muitas subidas e descidas íngremes”. Coitado do candango aqui. Já atravessei a Serra do Cipó, a subida pra chegar a Milho Verde, a serra que joga Carrancas lá nas alturas, cheguei a Cunha, atravessei a Serra da Bocaina pra chegar em Paraty, pra chegar a Diamantina atravessei as montanhas e morros de São Gonçalo do Rio das Pedras, mas não imaginava que pra chegar em Morro do Pilar iria deixar meu suor, minha alma e chegar a exaustão quase que completa.
Penei. Delirei. Quis desistir. Depois de cada curva eu sonhava com uma reta, e vinha outro morro, ou uma descida que de tão íngreme não lhe dava tempo pra descansar. Era freio o tempo inteiro, atenção redobrada nos buracos, pedras, ou morros íngremes e longos.
Sabe aqueles gráficos quando você faz exame de coração? Sobe/desce... pois a estrada é assim mesmo. Faltava ainda 10 km e disse ao Amador: “cara, preciso descansar um pouco. Tenho de dormir nem que seja cinco minutos”. Deitei na beira da estrada, nem mochila, nem capacete, nada eu tirei. Dormi em cima de pedras, poeira ou barro, sei lá... Levantei e segui em frente, sempre com o apoio total do meu amigo Amador Caiafa que dizia “Não desisti Silvão, depois você vai se arrepender”. Eu levantava pedalava e pensava: “devo ser uma anta mesmo. Já passei por isto antes, sei como é difícil, desgastante, e aqui estou eu, fazendo tudo novamente.... Cansado, esgotado...”
Às vezes o desespero me fazia pensar: “vou dar esta bike para o Daniel. Nunca mais farei outra viagem....”. Olhava aquele gramado a margem da estrada e me dava vontade de esticar por ali e esquecer do mundo. Dormir.... dormir... que me importa se acordar no meio da escuridão, só queria parar.
Mas ao mesmo tempo feliz em minha solidão, meus pensamentos. E era justamente isto que me dava força pra continuar. As lembranças das pessoas. Das que conheço, das que ainda não conheço. Das novas amizades, e dos velhos amigos, dos lugares que passamos e dos que ainda estavam por vir. E viajava uma outra viagem dentro da minha. Já avistando Morro do Pilar e para nosso alívio descemos uma estradinha estreita, cheia de curvas e barrancos, mato e lá embaixo um rio... e que rio. Paramos e enveredamos pelo pasto, chegamos a beira do rio e nos jogamos em suas águas. Bebo aquela água sem nem pensar se ali posso faze-lo. Um novo gás e Morro do Pilar ta ali na frente. Mas pra chegar no “centro” mais duas ladeiras, e de lá direto para a Mercearia do Pilar.
Nossa chegada se dá ao entardecer, são 17h30, e vamos a Mercaria do Pilar. Amador pede uma cerveja, eu no rum com coca. Refeitos da travessia, vamos atrás do lugar para o pouso. Achamos a Pousada da Didica. Lugar simples, limpinho e pra mim era como se fosse 5 estrelas. Banho de chuveiro, lavar as roupas, e voltar na Pilar para comer uma travessa de macarrão. Barriga cheia, pé na areia.... e cama.
Uma noite de sono repõe a energia, e pra quem no dia anterior, imaginava que nunca mais iria pedalar, que queria ligar para alguém ir lá e busca-lo, lá estava eu, de novo montado na Maricota dos Prazeres rumo a Conceição do Mato Dentro. Desta vez demos sorte, e o trajeto, apesar de algumas boas subidas, foi tranqüilo e nos levou a um lugar que foi dos mais bonitos da viagem. Uma ponte sobre um rio, e do lado direito, no sentido Morro do Pilar a Conceição do Mato Dentro, tinha rochas que chegavam a uns 15 metros de altura, e o rio correndo lá em baixo. Algumas pedras avançavam e formavam uma espécie de bico, e mesmo com o Amador dizendo pra não ir lá, fui e me sentei lá na ponta, num espaço de pouco mais de meio metro e o despenhadeiro ali embaixo.
Ele só gritou: “se for cair, que caia para o lado de lá, pelo menos cairá dentro do rio”. Que nada. Ainda fui a outro ponto, mais alto, e de onde tive uma visão maravilhosa. O rio começava a formar corredeiras no meio do desfiladeiro. Bonito demais. Quero voltar lá ainda. Mais um pouco e avistamos Conceição, e chegando lá fomos direto ao bar do Adão, e desce cerveja, maçã de peito, caldo, farinha e pimenta e uma cachaça da boa. Depois de deixar as bikes e a bagagem na Pousada do Imperial, do nosso velho conhecido Garoto, fomos jantar no Solar da Lili. Era a segunda vez que fazíamos daquele lugar nossa parada em viagem pela Estrada Real.
Dia seguinte era hora de seguir até Alvorada de Minas e percorrer um caminho que também já era mais que conhecido. Estradão. Fácil demais. Chegamos ao trevo que dá acesso a Alvorada, que é marcado pelo bar do Valmir, o Gangas & Candeias. Paramos. E o de sempre: cerveja, tira-gosto e uma pinga. Um rio corta as terras do Valmir e fui lá dar o tradicional mergulho. Voltamos e pegamos a orientação para chegar a fazenda do Zé Ione, na Estrada para Alvorada de Minas. Ele nos disse: “Vocês seguem esta estrada mais uns 300 metros, lá na frente tem o bar do meu irmão, o Dé, ali vocês viram a direita e contam 5 mata-burro, no quinto entrem a esquerda e tão dentro da fazenda”.
Andamos os 300 metros e paramos novamente. Mais cerveja, uma lingüiça da roça e mais cachaça. O Dé é gente boa, e não poderíamos passar direto pelo bar dele. Agora era só seguir e contar os mata-burro e achar a fazenda. O que foi fácil. Quando chegamos, o povo fez uma festa danada, não acreditaram que aqueles dois malucos iriam mesmo sair de BH e chegar ali, e de bike.
Depois dos cumprimentos, das apresentações de praxe, fui tomar um banho, lavar as roupas, e sentar naquela mesa enorme, que fica em frente ao fogão a lenha, e de onde vinha aquele cheiro delicioso. Comi demais. Quiabo e angu! Hum! Depois foi conversa até as corujas começarem a piar. Passamos o outro dia na fazenda, andamos a cavalo, tomamos leite tirado na hora, e a noite fomos a Alvorada.
Como havia chovido a cântaros, a cidade tava vaziaça. Só um buteco aberto, mas com uma das figuras mais engraçadas que conhecemos, o Samy Davis Jr. Ele cismou com o Amador, e acabaram fazendo uma dupla que cantou a noite inteira. Só com um detalhe importante: em inglês. E o Remil, o verdadeiro nome do Samy, não fala uma palavra no idioma do Tio Sam. Então era só ooohhhhhh ishhhhhhh yehsssssss forevissssssss youssss. Mas ele curtia, viajava e anunciava: “Agora pra vocês uma música do Phil Collins”. Pena que o Amador não levou a máquina, pois colocamos um copo descartável num taco de sinuca, e isto era o microfone do Samy. Vocês tinham de ver a cena: ele sentado num banquinho, agarrado no “microfone” cantando em “inglês”.
Fim da estadia na fazenda. Voltamos a Conceição, onde passamos mais uma noite, e desta vez andamos mais pela cidade, visitamos seus novos points. Hora de dormir, e no dia seguinte seguir pra Cardeal Mota.
Saímos cedo e pela primeira vez em toda viagem, pegamos uma tempestade na estrada. Raios e trovões foram nossa trilha sonora, e teve uma hora que um caiu a poucos metros de onde estávamos. Só deu pra ver aquele clarão, é como aqueles fiozinhos de cobre que ficam dentro das lâmpadas.... cortou o céu e silêncio.... de repente aquele estralo, seco. Só falei uma coisa: “Caramba! Viu este Amador?” E ele: “Este passou perto”. Continuamos pedalando. Lá no alto, quando já começávamos a descer a serra do Cipó, resolvemos tirar uma foto na estátua do Juquinha. Pula cerca, entra no caminho e seguimos em frente. Mas ao subir por um monte de terra, quando desço a roda da frente afunda no barro e caio de cara, de boca, de peito na lama. Voou Silvio pra todo lado, e a bike por cima. Levanto com dificuldade, a mochila agarra na bike. Sou barro do capacete aos pés. Mas pra minha salvação tinha um córrego ali pertinho, entro com a bike e tudo dentro dele. Lavo a bike, me lavo. Já não quero nem sair daqui, bom demais.... fico só com a cabeça do lado de fora. Mas saio e ensopado vou lá no Juquinha tirar algumas fotos. Minhas botas esguicham água, sento, tiro-as e a água escorre.
Montamos novamente nas magrelas e acabamos a descida. Se da última vez que passamos por ali (2005), era pura terra, hoje grande parte é asfaltada e o trecho de tombamento da serra do Cipó é feito por bloquetes de cimento. Ficou uma maravilha. Mais uma noite ali e a viagem termina depois de quase 400 km percorridos, muitas dores, dúvidas, mas também de muita alegria, de momentos quase que únicos. Lembranças dos trechos que passamos e durante horas não víamos uma pessoa.... Agora já faço planos para o próximo trecho que vamos percorrer. Sei que vou passar por tudo aquilo novamente, mas vale a pena. É uma aventura que não tem preço.
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Trecho da Estrada Real que liga Brumal a Cocais e Brumal a Catas Altas
Vamos começar pelo caminho da Estrada Real que nos levará a Catas Altas, saindo de Brumal, que é um lugarejo e fica entre Barão de Cocais e Santa Bárbara, está aos pés da Serra do Caraça. Saindo de Brumal e seguindo os marcos, percorremos uma estrada que nos levará ao restaurante da Janaina, e de lá até o estradão da Pedreira Um. Segue-se mais alguns quilômetros pelo estradão e voltamos as estradinhas, sempre seguindo os marcos, que como já expliquei, indicam sempre a direção que o turista deve seguir. Em todas as encruzilhadas você deve observar qual lado da estrada está o marco e de “olhos fechados” você chegará ao seu destino. Logo que entramos nesta estradinha vamos passar ao lado de um muro de pedra, feito na época dos escravos. É uma espécie de curral, existe um arco para entrar e você pode subir, pois o muro tem cerca de um metro de largura e caminhar por ele. Continuamos a estrada que passa por várias fazendas, até nos levar a Catas Altas. Esta cidade é de uma beleza singular. Se Brumal fica de um lado da serra do Caraça, Catas Altas está justamente do outro lado, ou seja, atrás. Suas Igrejas, o Festival do Vinho, sempre em julho, e suas muitas cachoeiras são alguns dos atrativos para os turistas. De Catas Altas e ainda seguindo os marcos vamos até Morro da Água Quente, e logo na entrada nos deparamos com uma lagoa maravilhosa. Na saída para a rodovia que liga a Marina, encontra-se o restaurante Rancho do Pote. É um passeio que vale a pena.
Agora a outra parte da estrada. Saindo de Brumal você segue no sentido de Barão de Cocais, e entra nas trilhas demarcadas pelos marcos da Estrada Real. Eles vão te levar por uma floresta de eucaliptos que vão até o alto da Torre do Barão. Esta subida é das mais fortes, e só ciclistas bem preparados vão conseguir transpô-las pedalando. O trajeto é todo feito a sombra. Chega-se no alto da Serra e começamos a descida para Cocais. Mas antes temos dois pontos de que não podemos passar sem uma parada. O primeiro é a Cachoeira da Pedra Pintada, que fica numa propriedade particular, e paga-se uma pequena taxa para visitá-la. A trilha até a cachoeira é bem sinalizada e mantida limpa por empregados do sítio. Mais abaixo encontramos o Sítio Arqueológico da Pedra Pintada, onde estão pinturas rupestres, o local foi tombado pelo governo e faz parte de pesquisas por especialistas da UFMG.
Continuamos a descida e chegamos a Cocais. Um arraial também que guarda muito da história de Minas.
Este foi o caminho da ida. Na volta saímos de Alvorada de Minas no sentido de Conceição e de lá para Cardeal Mota, Santana da Vargem, Lagoa Santa e BH.
Depois de percorrer o trecho de BH a Diamantina, via Serra do Cipó, e de já termos feitos BH a Paraty, resolvemos completar o percurso até Diamantina pelo outro lado da serra, o mais difícil. Nas reuniões para os combinarmos os últimos detalhes, ficou acertado que desta vez nós não iríamos contar com o carro de apoio, já que todos os amigos estavam com algum compromisso. Isto implica em levar uma bagagem extra. Saímos de BH no dia 20/01, um sábado (dia de São Sebastião, olha ele de novo). Este ano, as chuvas eram nossa maior preocupação, pois a semana inteira chovia sem parar. Para nossa sorte, quando iniciamos a viagem, às 8h da manhã no sentido de Brumal, o tempo estava bom e com sol, este caminho nossas bikes já fazem de “olhos” fechados. Um trecho que de tão conhecido já se tornou fácil e muito agradável.
Pegamos a rodovia que liga BH a Sabará, que depois da reforma ficou muito boa, e de lá entramos para Morro Vermelho. É uma estrada de terra, com subidas leves e Morro Vermelho é um lugarejo muito bonito. De lá você pode ir até o restaurante Alpen Rose, e a cachoeira de Santo Antônio, que fica a 8 km. Mas nosso rumo é Caeté, que em pouco alcançamos. Uma rápida parada no bar do Paulo, como de praxe, e agora seguimos para Barão de Cocais.
Esta estrada nós conhecemos como a palma de nossas mãos, pois é o mesmo trajeto que fazemos a anos toda Semana Santa, para nosso sítio aos pés da Serra do Caraça, num arraial chamado Brumal. Grande parte do caminho é percorrida na sombra, e com poucas subidas. A chegada em Barão de Cocais é uma maravilha para o ciclista. Só descida.
Não posso deixar de comentar um novo lugar que conhecemos, um pouco antes de Barão de Cocais. Um riacho com suas águas mansas e limpas, que corta a serra e serve de local para os amantes de camping. E que agora será uma parada obrigatória nas nossas próximas idas a Brumal.
Nosso primeiro pernoite foi justamente no sítio em Brumal, e lá já encontramos o Cláudio e alguns amigos que passavam o final de semana naquele paraíso. Um churrasco, muita caipirinha, e lá pela meia noite já estava no ponto pra descansar e pensar no próximo destino.
A manhã de domingo já nos pegou na estrada. E que estrada... Saímos de Brumal, passando por Barão de Cocais e Cocais (descrita no trecho que fala da Estrada Real entre Brumal e Cocais), Às vezes cortávamos uma mata só de eucaliptos, e um pouco mais a frente pedalar tendo a esquerda à mata virgem e a direita as plantações de eucaliptos. Trecho difícil, mas que deu pra atravessar com tranqüilidade, além de todo o caminho conta com o Marco da Estrada Real, o que facilita saber qual direção devemos seguir.
Cortamos a BR 381 e entramos no trevo para Bom Jesus. Mais alguns quilômetros e entramos em Bom Jesus. Paramos para um lanche, reabastecer o Camel-Bag de gatorade e seguimos em direção a Ipoema, onde seria nosso o próximo pernoite.
Comentar sobre as belezas dos lugares que atravessamos durante toda a viagem fica até difícil. São vales e mais vales, montanhas brilhando ao sol, ou encobertas com pesadas nuvens. Rios, fazendas, nossa!!! Cachoeiras lá longe, incrustadas no meio das matas.... que vontade de largar a bike ali e percorrer aqueles caminhos... Mas sabíamos que teríamos muitas outras pelo caminho.
Chegamos em Ipoema num dia de festa. Cavalgada para São Sebastião. Muito bonita a festança, a procissão. Procuramos um lugar pra hospedarmos, e escolhemos a Pousada do Quadrado. Que nome estranho... Banho tomado, roupa lavada. Aproveito para explicar como nós desenvolvemos esta técnica para todos os dias estarmos com as roupas lavadas. Entramos para o banho vestidos com a indumentária completa para o ciclista e ali vamos lavando peça por peça. Depois é só colocar para secar, e no dia seguinte estão secas e prontas para mais um dia na poeira, barro, o que for.
Depois do banho fomos procurar um restaurante, um buteco, qualquer coisa pra comer.
Paramos no trailer do Renato, e lá ficamos conhecendo o Adão, e os dois nos contaram das viagens que fazem a cavalo pela região. Mostraram algumas fotos e realmente atravessam lugares fantásticos. Quem sabe um dia poderemos voltar e ao invés de bikes, nos juntamos a eles na cavalgada. Mas rango mesmo, nada.
E em pleno domingo, às 15h da tarde não encontramos um único lugar que nos servisse uma refeição, um tira-gosto. Segundo as pessoas mais antigas do arraial, este é um dos problemas de lá. Voltamos à pousada e disse isto a Ica, a zeladora, e ela com muita boa vontade, providenciaram um quebra-galho com sua amiga Marilene.
Marilene buscou arroz, feijão, ovos em sua casa, e com as sobras do restaurante da pousada, que fica a 4 km de distância, fez um caldo de mandioca. A comida ficou pronta lá pelas 21 hs e aquilo pra mim foi um banquete. Estas duas meninas, que são funcionárias da pousada, e não têm a obrigação de alimentar seus hóspedes, salvaram a reputação de Ipoema. Duas pérolas. São acontecimentos assim que enriquecem a viagem, que dão o colorido diferente e especial. .
Segunda-Feira e vamos rumo a Morro do Pilar, e no meu guia já dizia: “Percurso difícil, em estrada de terra sinuosa. Muitas subidas e descidas íngremes”. Coitado do candango aqui. Já atravessei a Serra do Cipó, a subida pra chegar a Milho Verde, a serra que joga Carrancas lá nas alturas, cheguei a Cunha, atravessei a Serra da Bocaina pra chegar em Paraty, pra chegar a Diamantina atravessei as montanhas e morros de São Gonçalo do Rio das Pedras, mas não imaginava que pra chegar em Morro do Pilar iria deixar meu suor, minha alma e chegar a exaustão quase que completa.
Penei. Delirei. Quis desistir. Depois de cada curva eu sonhava com uma reta, e vinha outro morro, ou uma descida que de tão íngreme não lhe dava tempo pra descansar. Era freio o tempo inteiro, atenção redobrada nos buracos, pedras, ou morros íngremes e longos.
Sabe aqueles gráficos quando você faz exame de coração? Sobe/desce... pois a estrada é assim mesmo. Faltava ainda 10 km e disse ao Amador: “cara, preciso descansar um pouco. Tenho de dormir nem que seja cinco minutos”. Deitei na beira da estrada, nem mochila, nem capacete, nada eu tirei. Dormi em cima de pedras, poeira ou barro, sei lá... Levantei e segui em frente, sempre com o apoio total do meu amigo Amador Caiafa que dizia “Não desisti Silvão, depois você vai se arrepender”. Eu levantava pedalava e pensava: “devo ser uma anta mesmo. Já passei por isto antes, sei como é difícil, desgastante, e aqui estou eu, fazendo tudo novamente.... Cansado, esgotado...”
Às vezes o desespero me fazia pensar: “vou dar esta bike para o Daniel. Nunca mais farei outra viagem....”. Olhava aquele gramado a margem da estrada e me dava vontade de esticar por ali e esquecer do mundo. Dormir.... dormir... que me importa se acordar no meio da escuridão, só queria parar.
Mas ao mesmo tempo feliz em minha solidão, meus pensamentos. E era justamente isto que me dava força pra continuar. As lembranças das pessoas. Das que conheço, das que ainda não conheço. Das novas amizades, e dos velhos amigos, dos lugares que passamos e dos que ainda estavam por vir. E viajava uma outra viagem dentro da minha. Já avistando Morro do Pilar e para nosso alívio descemos uma estradinha estreita, cheia de curvas e barrancos, mato e lá embaixo um rio... e que rio. Paramos e enveredamos pelo pasto, chegamos a beira do rio e nos jogamos em suas águas. Bebo aquela água sem nem pensar se ali posso faze-lo. Um novo gás e Morro do Pilar ta ali na frente. Mas pra chegar no “centro” mais duas ladeiras, e de lá direto para a Mercearia do Pilar.
Nossa chegada se dá ao entardecer, são 17h30, e vamos a Mercaria do Pilar. Amador pede uma cerveja, eu no rum com coca. Refeitos da travessia, vamos atrás do lugar para o pouso. Achamos a Pousada da Didica. Lugar simples, limpinho e pra mim era como se fosse 5 estrelas. Banho de chuveiro, lavar as roupas, e voltar na Pilar para comer uma travessa de macarrão. Barriga cheia, pé na areia.... e cama.
Uma noite de sono repõe a energia, e pra quem no dia anterior, imaginava que nunca mais iria pedalar, que queria ligar para alguém ir lá e busca-lo, lá estava eu, de novo montado na Maricota dos Prazeres rumo a Conceição do Mato Dentro. Desta vez demos sorte, e o trajeto, apesar de algumas boas subidas, foi tranqüilo e nos levou a um lugar que foi dos mais bonitos da viagem. Uma ponte sobre um rio, e do lado direito, no sentido Morro do Pilar a Conceição do Mato Dentro, tinha rochas que chegavam a uns 15 metros de altura, e o rio correndo lá em baixo. Algumas pedras avançavam e formavam uma espécie de bico, e mesmo com o Amador dizendo pra não ir lá, fui e me sentei lá na ponta, num espaço de pouco mais de meio metro e o despenhadeiro ali embaixo.
Ele só gritou: “se for cair, que caia para o lado de lá, pelo menos cairá dentro do rio”. Que nada. Ainda fui a outro ponto, mais alto, e de onde tive uma visão maravilhosa. O rio começava a formar corredeiras no meio do desfiladeiro. Bonito demais. Quero voltar lá ainda. Mais um pouco e avistamos Conceição, e chegando lá fomos direto ao bar do Adão, e desce cerveja, maçã de peito, caldo, farinha e pimenta e uma cachaça da boa. Depois de deixar as bikes e a bagagem na Pousada do Imperial, do nosso velho conhecido Garoto, fomos jantar no Solar da Lili. Era a segunda vez que fazíamos daquele lugar nossa parada em viagem pela Estrada Real.
Dia seguinte era hora de seguir até Alvorada de Minas e percorrer um caminho que também já era mais que conhecido. Estradão. Fácil demais. Chegamos ao trevo que dá acesso a Alvorada, que é marcado pelo bar do Valmir, o Gangas & Candeias. Paramos. E o de sempre: cerveja, tira-gosto e uma pinga. Um rio corta as terras do Valmir e fui lá dar o tradicional mergulho. Voltamos e pegamos a orientação para chegar a fazenda do Zé Ione, na Estrada para Alvorada de Minas. Ele nos disse: “Vocês seguem esta estrada mais uns 300 metros, lá na frente tem o bar do meu irmão, o Dé, ali vocês viram a direita e contam 5 mata-burro, no quinto entrem a esquerda e tão dentro da fazenda”.
Andamos os 300 metros e paramos novamente. Mais cerveja, uma lingüiça da roça e mais cachaça. O Dé é gente boa, e não poderíamos passar direto pelo bar dele. Agora era só seguir e contar os mata-burro e achar a fazenda. O que foi fácil. Quando chegamos, o povo fez uma festa danada, não acreditaram que aqueles dois malucos iriam mesmo sair de BH e chegar ali, e de bike.
Depois dos cumprimentos, das apresentações de praxe, fui tomar um banho, lavar as roupas, e sentar naquela mesa enorme, que fica em frente ao fogão a lenha, e de onde vinha aquele cheiro delicioso. Comi demais. Quiabo e angu! Hum! Depois foi conversa até as corujas começarem a piar. Passamos o outro dia na fazenda, andamos a cavalo, tomamos leite tirado na hora, e a noite fomos a Alvorada.
Como havia chovido a cântaros, a cidade tava vaziaça. Só um buteco aberto, mas com uma das figuras mais engraçadas que conhecemos, o Samy Davis Jr. Ele cismou com o Amador, e acabaram fazendo uma dupla que cantou a noite inteira. Só com um detalhe importante: em inglês. E o Remil, o verdadeiro nome do Samy, não fala uma palavra no idioma do Tio Sam. Então era só ooohhhhhh ishhhhhhh yehsssssss forevissssssss youssss. Mas ele curtia, viajava e anunciava: “Agora pra vocês uma música do Phil Collins”. Pena que o Amador não levou a máquina, pois colocamos um copo descartável num taco de sinuca, e isto era o microfone do Samy. Vocês tinham de ver a cena: ele sentado num banquinho, agarrado no “microfone” cantando em “inglês”.
Fim da estadia na fazenda. Voltamos a Conceição, onde passamos mais uma noite, e desta vez andamos mais pela cidade, visitamos seus novos points. Hora de dormir, e no dia seguinte seguir pra Cardeal Mota.
Saímos cedo e pela primeira vez em toda viagem, pegamos uma tempestade na estrada. Raios e trovões foram nossa trilha sonora, e teve uma hora que um caiu a poucos metros de onde estávamos. Só deu pra ver aquele clarão, é como aqueles fiozinhos de cobre que ficam dentro das lâmpadas.... cortou o céu e silêncio.... de repente aquele estralo, seco. Só falei uma coisa: “Caramba! Viu este Amador?” E ele: “Este passou perto”. Continuamos pedalando. Lá no alto, quando já começávamos a descer a serra do Cipó, resolvemos tirar uma foto na estátua do Juquinha. Pula cerca, entra no caminho e seguimos em frente. Mas ao subir por um monte de terra, quando desço a roda da frente afunda no barro e caio de cara, de boca, de peito na lama. Voou Silvio pra todo lado, e a bike por cima. Levanto com dificuldade, a mochila agarra na bike. Sou barro do capacete aos pés. Mas pra minha salvação tinha um córrego ali pertinho, entro com a bike e tudo dentro dele. Lavo a bike, me lavo. Já não quero nem sair daqui, bom demais.... fico só com a cabeça do lado de fora. Mas saio e ensopado vou lá no Juquinha tirar algumas fotos. Minhas botas esguicham água, sento, tiro-as e a água escorre.
Montamos novamente nas magrelas e acabamos a descida. Se da última vez que passamos por ali (2005), era pura terra, hoje grande parte é asfaltada e o trecho de tombamento da serra do Cipó é feito por bloquetes de cimento. Ficou uma maravilha. Mais uma noite ali e a viagem termina depois de quase 400 km percorridos, muitas dores, dúvidas, mas também de muita alegria, de momentos quase que únicos. Lembranças dos trechos que passamos e durante horas não víamos uma pessoa.... Agora já faço planos para o próximo trecho que vamos percorrer. Sei que vou passar por tudo aquilo novamente, mas vale a pena. É uma aventura que não tem preço.
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Trecho da Estrada Real que liga Brumal a Cocais e Brumal a Catas Altas
Vamos começar pelo caminho da Estrada Real que nos levará a Catas Altas, saindo de Brumal, que é um lugarejo e fica entre Barão de Cocais e Santa Bárbara, está aos pés da Serra do Caraça. Saindo de Brumal e seguindo os marcos, percorremos uma estrada que nos levará ao restaurante da Janaina, e de lá até o estradão da Pedreira Um. Segue-se mais alguns quilômetros pelo estradão e voltamos as estradinhas, sempre seguindo os marcos, que como já expliquei, indicam sempre a direção que o turista deve seguir. Em todas as encruzilhadas você deve observar qual lado da estrada está o marco e de “olhos fechados” você chegará ao seu destino. Logo que entramos nesta estradinha vamos passar ao lado de um muro de pedra, feito na época dos escravos. É uma espécie de curral, existe um arco para entrar e você pode subir, pois o muro tem cerca de um metro de largura e caminhar por ele. Continuamos a estrada que passa por várias fazendas, até nos levar a Catas Altas. Esta cidade é de uma beleza singular. Se Brumal fica de um lado da serra do Caraça, Catas Altas está justamente do outro lado, ou seja, atrás. Suas Igrejas, o Festival do Vinho, sempre em julho, e suas muitas cachoeiras são alguns dos atrativos para os turistas. De Catas Altas e ainda seguindo os marcos vamos até Morro da Água Quente, e logo na entrada nos deparamos com uma lagoa maravilhosa. Na saída para a rodovia que liga a Marina, encontra-se o restaurante Rancho do Pote. É um passeio que vale a pena.
Agora a outra parte da estrada. Saindo de Brumal você segue no sentido de Barão de Cocais, e entra nas trilhas demarcadas pelos marcos da Estrada Real. Eles vão te levar por uma floresta de eucaliptos que vão até o alto da Torre do Barão. Esta subida é das mais fortes, e só ciclistas bem preparados vão conseguir transpô-las pedalando. O trajeto é todo feito a sombra. Chega-se no alto da Serra e começamos a descida para Cocais. Mas antes temos dois pontos de que não podemos passar sem uma parada. O primeiro é a Cachoeira da Pedra Pintada, que fica numa propriedade particular, e paga-se uma pequena taxa para visitá-la. A trilha até a cachoeira é bem sinalizada e mantida limpa por empregados do sítio. Mais abaixo encontramos o Sítio Arqueológico da Pedra Pintada, onde estão pinturas rupestres, o local foi tombado pelo governo e faz parte de pesquisas por especialistas da UFMG.
Continuamos a descida e chegamos a Cocais. Um arraial também que guarda muito da história de Minas.

























